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Tomar café em jejum eleva o cortisol

Essa prática pode elevar o hormônio do estresse em 50%

Pesquisas nas áreas de endocrinologia e fisiologia têm chamado atenção para um hábito bastante comum: beber café logo ao acordar, ainda em jejum. O que muita gente não percebe é que esse comportamento pode interferir diretamente no equilíbrio hormonal, sobretudo nos níveis de cortisol — o famoso “hormônio do estresse”, essencial para a sobrevivência, mas problemático quando permanece elevado por tempo prolongado.

Ao despertar, o corpo entra naturalmente em um processo chamado Cortisol Awakening Response (CAR). Trata-se de um pico fisiológico de cortisol que ocorre nas primeiras dezenas de minutos após acordar. Esse aumento não é algo negativo; pelo contrário, ele ajuda o organismo a sair do estado de repouso, mobilizar energia, regular a pressão arterial, ativar o metabolismo e preparar o cérebro para iniciar o dia com atenção e alerta.

Café com estômago vazio aumenta o cortisol
Café com estômago vazio aumenta o cortisol

O problema surge quando a cafeína entra em cena exatamente nesse momento. Estudos mostram que consumir café durante esse pico natural pode amplificar ainda mais a liberação de cortisol. Isso acontece porque a cafeína estimula diretamente o sistema nervoso central e ativa as glândulas suprarrenais, responsáveis pela produção desse hormônio. Em vez de apenas “acompanhar” o despertar, o organismo entra em um estado de hiperestimulação.

Pesquisas controladas indicam que a cafeína pode elevar os níveis de cortisol em aproximadamente 30% a 50%, dependendo de fatores como sensibilidade individual, quantidade ingerida, frequência de consumo e estado metabólico da pessoa. Em indivíduos mais sensíveis ou já expostos a altos níveis de estresse, esse aumento pode ser ainda mais perceptível.

No consumo ocasional, isso geralmente não representa um risco significativo. Porém, quando o café em jejum se torna um hábito diário, a exposição repetida a picos elevados de cortisol pode contribuir para uma série de sintomas indesejados. Entre eles estão ansiedade persistente, irritabilidade, aceleração dos batimentos cardíacos, sensação de “alerta excessivo”, desconforto gastrointestinal e uma percepção constante de estresse ao longo do dia. Com o tempo, esse padrão pode impactar o humor, o sono e até a resposta imunológica.

Além dos efeitos hormonais, a literatura em gastroenterologia também aponta outro ponto de atenção. O café consumido sem a presença de alimento estimula fortemente a secreção de ácido gástrico. Em pessoas predispostas, isso pode irritar a mucosa do estômago, favorecer azia, queimação, refluxo e prejudicar o processo digestivo logo nas primeiras horas do dia — quando o sistema gastrointestinal ainda está “acordando”.

Por esse conjunto de fatores, muitos especialistas em nutrição e medicina funcional recomendam uma abordagem mais estratégica: consumir o café após uma refeição leve. Algo simples já faz diferença — frutas, aveia, ovos, iogurte, ou fontes de proteína e gordura saudável. Essa prática ajuda a atenuar o impacto da cafeína sobre o cortisol, reduz a agressão ao estômago e promove uma liberação de energia mais estável.

Assim, é possível aproveitar os benefícios reais do café — melhora do foco, aumento da energia, maior desempenho cognitivo e sensação de disposição — sem sobrecarregar o organismo logo no início do dia. Pequenos ajustes de hábito podem transformar o café de um possível fator de estresse em um verdadeiro aliado da saúde.

♦️FONTES:

Lovallo W.R. et al. Stress-like adrenocortical responses to caffeine in normal subjects DOI: 10.1097/00006842-199501000-00006 Thayer J.F. et al. Effects of caffeine on cortisol and stress response DOI: 10.1016/S0306-4530(97)00009-4 Clow A. et al. The cortisol awakening response: more than a measure of HPA axis function DOI: 10.1016/j.neubiorev.2010.12.011 Boekema P.J. et al. Coffee and gastrointestinal function DOI: 10.1038/ajg.1999.105